CNN Brasil
A relação entre agronegócio e política brasileira passa por uma importante mudança de postura depois de duas eleições. Após anos do setor ter ficado fortemente associado a um determinado campo político, importantes lideranças do agro ouvidas pela CNN avaliam que essa proximidade trouxe um custo para a atividade e que é preciso preservar maior independência em relação aos candidatos nas eleições de 2026 e nas próximas.
A avaliação é compartilhada por diferentes representações do setor ouvidas pela reportagem.
O entendimento é que o agro não pode deixar de ter posições sobre os rumos do país, mas precisa evitar que essas posições sejam confundidas com uma escolha política institucional. A percepção é tão forte nos bastidores que nenhuma das representações ouvidas quis se manifestar publicamente sobre essa mudança de postura.
Não se trata de uma mudança uniforme na preferência política de produtores, empresários ou entidades, nem de uma decisão de apoio ou rejeição a qualquer candidato.
A questão é mais pragmática: separar a preferência política individual da representação de um setor que reúne interesses diferentes e que continuará precisando conversar com o governo federal, independentemente de quem vencer a eleição.
Para essas lideranças, o problema não foi a preferência política em si, que ganhou força principalmente a partir de 2018, mas o fato de o agro ter passado a ser identificado, em alguns momentos, como um bloco político pela população geral, embora reúna produtores, empresas e trabalhadores com posições diferentes.
Política x economia
A consequência foi um desgaste que ultrapassou a disputa entre candidatos e governos. A imagem política passou a se sobrepor, em parte, à imagem econômica de um setor que reúne produtores de diferentes tamanhos, empresas, cooperativas, trabalhadores e cadeias produtivas espalhadas pelo país.
A avaliação é que essa associação tem um custo concreto: o agro depende de crédito, juros, seguro rural, infraestrutura, comércio exterior, tributação e segurança jurídica. São temas que precisam ser negociados com qualquer governo.
A tentativa de preservar essa autonomia não significa deixar de fazer política. Significa evitar que o setor seja colocado no centro de uma disputa eleitoral.
Nem mesmo a candidatura mais diretamente associada ao agronegócio parece ter sido suficiente para reverter esse movimento. Ronaldo Caiado, que construiu sua trajetória política ligado ao setor e disputa a Presidência em 2026, conseguiu ocupar esse espaço na campanha.
É nesse contexto que uma mudança na agenda da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) ganha peso.
Segundo agurou a reportagem, a Frente não fará a rodada de encontros com presidenciáveis no primeiro turno deste ano. Também não há, neste momento, previsão de uma agenda semelhante no segundo turno. O cenário ainda pode ser reavaliado.
A mudança ganha significado quando colocada em perspectiva.
Antes da eleição de 2018, a FPA já promovia encontros com pré-candidatos. Ciro Gomes, e outros candidatos, participaram na época e Jair Bolsonaro também esteve em um encontro com parlamentares ligados ao setor naquele ano.
Naquele momento, a frente ainda dizia não ter escolhido um candidato e apresentava os encontros como uma forma de ouvir os presidenciáveis e discutir as demandas do agro.
Em 2018, já no segundo turno, a FPA declarou apoio a Bolsonaro e se reuniu com o então candidato para apresentar uma pauta prioritária do setor.
Em 2022, a entidade voltou a convidar candidatos à Presidência. Luiz Inácio Lula da Silva também foi convidado, mas não aceitou participar, segundo apuração da reportagem.
Agora, a rodada de encontros não será repetida nem no primeiro turno. A mudança não significa que a FPA ou o agronegócio tenham deixado de fazer política. O que muda é a forma de exposição eleitoral.
A experiência deixou uma conclusão prática: para uma atividade que precisa negociar com qualquer governo, a identificação institucional com um projeto político pode limitar a capacidade de interlocução.
A relação com Lula também deixou marcas
A tentativa de reduzir a exposição política acontece depois de um período de forte tensão entre o agronegócio e o governo Lula. Desde 2023, qunado o petista reassumiu o Planalto, os dois lados protagonizaram uma série de confrontos públicos.
Em junho daquele ano, Lula afirmou que o problema do agronegócio com seu governo era ideológico. O presidente disse que não se tratava de falta de recursos destinados ao setor e afirmou que não estava preocupado em saber se o produtor rural gostava dele.
A declaração ocorreu em meio a críticas de representantes do setor ao novo governo e à expectativa pelo Plano Safra.
A tensão também apareceu nas discussões sobre segurança no campo. Nos primeiros meses de 2023, o número de invasões de propriedades rurais aumentou. Segundo levantamento da CNA, foram 56 invasões entre janeiro e abril daquele ano.
O tema ganhou peso político dentro do Congresso e entre entidades do setor.
Outro ponto de conflito foi a questão indígena. Em setembro de 2023, o STF derrubou a tese do marco temporal para demarcação de terras indígenas. A decisão provocou reação da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) e de entidades do setor, que apontaram risco de insegurança jurídica.
A disputa continuou no Congresso e passou a integrar a lista de temas que ampliaram a distância entre o governo e parte do agronegócio.
2024 teve arroz, crédito e a ruptura no diálogo
Em 2024, a relação chegou a alguns dos momentos mais tensos do atual governo.
Depois das enchentes no Rio Grande do Sul, o governo decidiu importar arroz para tentar conter a alta dos preços. O leilão realizado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) acabou cancelado depois de questionamentos sobre a capacidade financeira e operacional das empresas vencedoras.
Durante um almoço da FPA, o presidente da CNA, João Martins, comemorou o cancelamento e fez uma das críticas mais duras ao governo Lula. "Me recuso a falar com o presidente Lula", disse Martins, ao afirmar que havia sido convidado para conversar com o presidente sobre a MP (Medida Provisória) 1.227. Na mesma ocasião, classificou o governo como um "desgoverno" e pediu ao Congresso que reagisse à medida.
O episódio ganhou relevância porque mostrou o tamanho da ruptura entre uma das principais entidades empresariais do agro e o Palácio do Planalto.
A MP 1.227, que alterava regras para utilização de créditos de PIS/Cofins, provocou forte reação de setores produtivos e acabou devolvida pelo Congresso em parte de sua tramitação política. Na sequência, a discussão voltou para o crédito rural.
O Plano Safra 2024/25 também foi alvo de críticas da bancada ruralista, principalmente em relação aos juros e às condições de financiamento.
O conflito deixou de ser apenas uma divergência sobre uma política específica e passou a envolver a própria relação institucional entre governo e setor.
Em 2025, a disputa chegou aos alimentos
No ano seguinte, a relação continuou marcada por conflitos, desta vez com foco também nos preços dos alimentos. A suspensão de linhas de crédito do Plano Safra provocou novas críticas da FPA ao governo. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, respondeu acusando a frente de adotar uma postura de oposição ao Executivo.
A discussão voltou a crescer quando o governo anunciou medidas para tentar reduzir o preço dos alimentos, incluindo alterações tarifárias para alguns produtos.
Representantes do agro questionaram a estratégia e defenderam que o governo atuasse sobre custos de produção, juros, câmbio e questões fiscais.
O episódio mostrou novamente uma contradição que passou a aparecer com frequência na relação entre governo e setor: ao mesmo tempo em que o Executivo ampliava políticas de financiamento e buscava dialogar com produtores, entidades importantes do agro mantinham uma postura de confronto em temas considerados estratégicos.
Em 2026, tensão entre agro e governo ganha novos capítulos
O primeiro grande conflito entre agro e governo em 2026 envolveu a renegociação das dívidas rurais. Depois de uma série de idas e vindas entre Congresso, FPA e Executivo, a solução acabou sendo construída por meio de uma MP (Medida Provisória). O texto virou uma das principais disputas do ano, com divergências sobre quem teria acesso à renegociação, as condições de pagamento e o impacto fiscal da medida --- a medida ainda segue questionada pelos setores.
Outro desafio que aproximou de certa forma o agronegócio e o governo foram as novas pressões no comércio exterior.
A relação com os Estados Unidos voltou ao centro das atenções após a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump. Parte das exportações do agro foi atingida, obrigando empresas e entidades do setor a buscar alternativas para preservar mercados. Com isso, o governo aprovou a entrada de setores do agronegócio nas medidas de crédito extraordinário para nao prejudicar a atividade.
Na União Europeia, outra frente de preocupação surgiu com as exigências sanitárias e as regras relacionadas ao uso de antimicrobianos.
Apesar da animação com os negocios pela entrada em vigor do acordo UE-Mercosul, mudanças nos requisitos para envios de carnes ao bloco aumentaram a pressão sobre produtores e exportadores brasileiros e colocaram novamente em discussão a capacidade do país de atender às exigências de seus principais mercados.
Governo e setor produtivo tiveram que trabalhar em conjunto para amenizar a situação. O resultado foi a relistagem parcial de alguns produtos.
A tentativa de separar preferência política e representação
É a partir desse histórico que lideranças ouvidas pela CNN identificam uma mudança de avaliação. O agro não deixou de ter posições políticas. A eleição continuará mobilizando produtores, empresários e parlamentares. A diferença está na tentativa de não transformar essas preferências em uma identidade institucional única do setor.
A experiência dos últimos anos mostrou, na avaliação dessas lideranças, que existe um custo quando uma atividade econômica passa a ser identificada diretamente com um grupo político.
Esse custo aparece na imagem, mas também pode aparecer nos negócios.
Uma empresa exportadora precisa conversar com Washington. Um produtor precisa acessar crédito. Uma cooperativa precisa vender sua produção. Uma entidade precisa negociar com o governo federal. Nenhuma dessas necessidades desaparece porque um candidato venceu a eleição.
Depois de anos em que o agronegócio esteve no centro da disputa entre diferentes grupos políticos, a preocupação agora é mais pragmática: preservar espaço para conversar com quem estiver no poder e reduzir o risco de que a disputa política produza uma conta econômica para quem está no campo.
A eleição de 2026 será o primeiro teste dessa mudança. Não necessariamente porque o agro tenha mudado de posição política, mas porque parte de suas lideranças parece ter chegado à conclusão de que uma coisa é escolher um candidato; outra é colocar o setor inteiro dentro de uma disputa eleitoral.
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