A extinção de uma espécie não significa apenas o desaparecimento de um animal ou de uma planta. Como os seres vivos estão ligados por uma rede de relações, a perda de um deles pode modificar o funcionamento de todo o ecossistema.
Polinização, dispersão de sementes, controle de populações, decomposição e reciclagem de nutrientes estão entre os processos que podem ser afetados. As consequências nem sempre aparecem imediatamente, mas podem se acumular durante anos.
Para a ecóloga Ima Vieira, pesquisadora do Museu Goeldi e membro da Academia Brasileira de Ciências, um ecossistema deve ser entendido como um sistema em funcionamento, formado pelos seres vivos e pelo ambiente físico.
"Um ecossistema não é uma coleção, é um sistema em funcionamento", explica.
Nem toda espécie exerce a mesma função
O impacto da perda varia de acordo com o papel desempenhado por cada espécie. Segundo o professor Reuber Albuquerque Brandão, da Universidade de Brasília (UnB), alguns organismos conseguem desempenhar funções semelhantes às de outros, o que dá ao ecossistema maior capacidade de suportar alterações.
Em outros casos, porém, o desaparecimento de uma única espécie pode provocar mudanças significativas. É o que ocorre com as chamadas espécies-chave, cuja presença influencia diretamente outras populações.
A bióloga Vanessa Staggemeier, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cita como exemplo os peixes limpadores dos recifes de coral. Eles retiram parasitas da pele de outros peixes. Quando desaparecem, a quantidade e a diversidade de espécies que utilizam esses ambientes podem diminuir.
A ausência de grandes predadores também pode provocar efeitos em cadeia. Sem eles, determinadas populações aumentam excessivamente e alteram o equilíbrio da cadeia alimentar.
Desaparecimento pode afetar até a renovação das florestas
Na Amazônia, a redução de grandes mamíferos, como antas e macacos, interfere na dispersão de sementes de árvores de grande porte. Com menos sementes sendo transportadas, essas espécies podem ter dificuldade para se regenerar, enquanto árvores menores e de crescimento rápido ocupam o espaço.
O problema pode avançar ainda mais. Em determinadas situações, o desaparecimento de uma espécie aumenta o risco de outras também desaparecerem. Esse processo pode ocorrer diretamente, quando existe uma dependência muito específica entre organismos, ou de maneira indireta, com mudanças graduais na comunidade.
Um exemplo citado por Ima Vieira envolve a Mata Atlântica. A redução de aves grandes que espalhavam os frutos do palmiteiro fez com que, ao longo de décadas, as sementes da planta passassem a ser dispersadas principalmente por aves menores.
Existe ainda o chamado "débito de extinção": espécies que continuam presentes em uma área alterada, mas já enfrentam condições que podem levá-las ao desaparecimento no futuro.
Uma floresta que voltou não é necessariamente a mesma
A recuperação da vegetação também não significa que o ecossistema tenha retornado ao estado anterior. Florestas secundárias podem recuperar parte da quantidade de espécies de árvores relativamente rápido, mas sua composição pode permanecer diferente da de uma floresta antiga durante muito tempo.
"Ter o mesmo número de espécies não é ter as mesmas espécies", explica Ima.
Quando uma espécie é extinta, sua função ecológica e as relações que ela estabeleceu ao longo de milhões de anos também desaparecem. Por isso, os especialistas destacam que conservar a biodiversidade não significa apenas evitar a perda de animais e plantas, mas preservar os processos naturais dos quais os próprios seres humanos dependem.
Metrópoles