Emater/RS
As chuvas acima da média associadas ao Super El Niño já provocam prejuízos em diferentes culturas agrícolas no Sul do país. Produtores do Paraná e do Rio Grande do Sul relatam impactos em hortaliças, frutas, tabaco, cevada, aveia, trigo, canola e milho, com perdas provocadas por excesso de umidade, granizo, geadas e dificuldades para colher as lavouras.
No Rio Grande do Sul, as hortaliças aparecem entre as culturas mais afetadas pelos temporais que atingiram principalmente a Serra Gaúcha nos últimos dias. Segundo Mateus Rocha, diretor técnico da Emater-RS, granizo e chuvas intensas causaram danos em áreas de produção de hortifrúti, enquanto as lavouras de inverno também sofrem os efeitos do excesso de precipitação.
O técnico afirma que os impactos vão além da perda direta das plantas. O solo encharcado dificulta o escoamento da água, favorece erosão, lixiviação de nutrientes e formação de voçorocas em algumas propriedades.
Segundo o boletim mais recente da Emater, geadas e granizo também provocaram danos localizados em lavouras de aveia branca, canola e cevada, que entram nas fases finais do ciclo sob maior pressão de doenças fúngicas. A giberela, ferrugens, oídio e manchas foliares seguem sendo monitorados nas áreas mais suscetíveis.
Rocha afirma que a combinação de chuvas intensas, crédito restrito e custos elevados de produção reduz a margem para erros no campo. "Nós não temos mais espaço para erro. O clima está impondo um novo padrão, e o produtor precisa tomar decisões cada vez mais técnicas para reduzir os impactos desses eventos", disse.
Tabaco e frutas
As chuvas vieram acompanhadas de outros eventos climáticos extremos em diferentes regiões gaúchas.
Em Liberato Salzano, no norte do estado, mais de 500 propriedades rurais registraram prejuízos após uma tempestade de granizo, segundo a Emater.
"O tabaco, ainda recém plantado, recém transplantado para as lavouras, acaba fazendo com que se haja essa dificuldade do replantio agora nesse momento. A laranja, com muitos frutos caídos ao chão já e, como é um período que também já tem um florescimento, já com prejuízo na safra que virá ainda nessas propriedades", disse Rocha.
O boletim da Emater também aponta impactos sobre a produção de morangos. A florada de agosto foi prejudicada pela combinação de excesso de nebulosidade, baixa radiação solar e elevada umidade, resultando em frutos menores e deformados por falhas na polinização.
Em Ijuí, geadas provocaram queimaduras em videiras, e produtores precisaram realizar repoda dos parreirais. Melão e melancia também tiveram áreas replantadas após perdas causadas pelo frio.
Culturas de inverno
As chuvas também prejudicam a colheita de trigo, cevada, aveia e outras culturas de inverno. "As culturas de inverno, como um todo, acabam, de certa forma, sofrendo esse reflexo da chuva mais volumosa", afirmou Rocha.
No Paraná, o excesso de chuva afeta praticamente todas as culturas de inverno que estão em fase de colheita, segundo Carlos Winckler Godinho, coordenador da Divisão de Conjuntura do Deral. "A manutenção de chuva para os próximos dias não é boa para quem está colhendo. A situação da cevada é especialmente preocupante", disse.
A cevada, que tem ganhado espaço como alternativa ao trigo no estado, permanece em fase reprodutiva em parte das regiões. Segundo o Deral, o excesso de umidade e a baixa incidência de radiação solar favorecem doenças e acamamento das plantas. Cerca de 8% da área já foi colhida.
A aveia também tem colheita mais lenta em função da umidade elevada, enquanto a batata registrou interrupções temporárias tanto no plantio quanto na colheita em algumas regiões do estado.
Safra de verão e pastagens
Se as culturas de inverno já acumulam perdas, o próximo desafio pode ser o início da safra de verão.
Com a primavera começando sob influência de um Super El Niño, a previsão é de manutenção de chuvas acima da média na Região Sul nas próximas semanas. Esse cenário aumenta o risco de atraso na semeadura de soja, milho e arroz, caso o excesso de umidade impeça a entrada de máquinas nas lavouras.
No Rio Grande do Sul, geadas atingiram lavouras implantadas mais cedo e, em alguns casos, será necessário replantio. Episódios de granizo também provocaram perdas em áreas pontuais.
Rocha afirma que este período é crítico porque coincide com a reta final da colheita das culturas de inverno e o início do plantio das culturas de verão.
"O que preocupa agora é exatamente a dificuldade de colher e, logo depois, conseguir implantar a safra de verão. Se o solo permanecer muito úmido, o produtor perde essas janelas de trabalho", disse.
No Paraná, o plantio do milho de verão desacelerou temporariamente por causa das chuvas, mas voltou a ganhar ritmo com a abertura de períodos de tempo firme.
O Deral informa que o plantio da soja já começou, mas segue em ritmo variável por causa da elevada umidade do solo. O arroz irrigado também teve o plantio prejudicado pelas chuvas e aguarda melhores condições para retomada das operações.
Apesar disso, Godinho afirma que ainda não há indicação de prejuízo relevante para a implantação da safra de verão no estado. "Não vejo problema, por enquanto, para a safra nova. Houve alguns dias de tempo firme que permitiram acelerar o plantio", disse.
Já as pastagens responderam de forma diferente ao excesso de chuva. Segundo a Emater-RS, aveia e azevém apresentaram boa produção de massa verde, com prejuízos restritos a áreas alagadas ou atingidas por ventos fortes. O Deral também relata boas condições das pastagens no Paraná, favorecidas pela maior disponibilidade de água.
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