Porto Velho (RO)14 de Julho de 202616:40:13
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Agro

Cota da China altera estratégia e preocupa setor da carne bovina brasileira

Com quase todo o volume autorizado já comprometido, indústrias reduzem ritmo de abates e avaliam novos destinos para a carne brasileira


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A medida de salvaguarda adotada pela China para proteger a produção local de carne bovina começa a mudar a dinâmica do setor brasileiro. O preenchimento da cota de exportação já reduziu o ritmo dos frigoríficos, pressionou a arroba do boi gordo e acendeu o alerta entre exportadores e pecuaristas.

A medida de salvaguarda comercial entrou em vigor em 1º de janeiro deste ano, após ser anunciada pelo governo chinês em dezembro de 2025, e foi adotada sob a justificativa de proteger os pecuaristas e a indústria local diante do avanço das importações.

Na prática, a iniciativa segue a tendência de aumento das barreiras comerciais observada em outras economias. Enquanto a União Europeia reforça exigências regulatórias para produtos importados, os Estados Unidos ampliaram o uso de tarifas sobre parceiros comerciais como forma de proteger sua indústria.

O mecanismo estabelece uma quantidade máxima de carne que pode entrar na China pagando apenas a tarifa regular. A partir desse limite, passa a incidir uma sobretaxa capaz de reduzir significativamente a competitividade do produto estrangeiro.

Para o Brasil, a cota foi fixada em 1,106 milhão de toneladas. Até esse volume permanece válida a tarifa de importação de 12%. Acima disso, entra em vigor uma sobretaxa adicional de 55%, elevando a tributação total para 67%.

O volume estabelecido pela cota ficou abaixo do fluxo comercial já consolidado entre Brasil e China. Dados da ComexStat mostram que, em 2025, o Brasil embarcou cerca de 1,68 milhão de toneladas de carne bovina ao mercado chinês, quantidade aproximadamente 35% superior ao limite definido pela nova regra.

O diretor da Athenagro, Maurício de Palma Nogueira, afirma que a decisão chinesa representa uma tentativa de fortalecer a cadeia pecuária doméstica.

"O que foi falado é que havia necessidade de proteger a indústria local. Eles estabeleceram essas medidas de salvaguarda e aplicaram cotas para todos os países."

Segundo ele, o Brasil acabou recebendo a maior cota justamente porque é o principal fornecedor da China.

"Como o Brasil é o maior exportador para eles, ficou também com a maior cota. O que passar desse limite recebe uma tributação total de aproximadamente 67%, o que praticamente inviabiliza nossa competitividade."

O pesquisador do FGV Agro, Felippe Serigatti, avalia que a tendência é de uma forte desaceleração das exportações brasileiras para a China no segundo semestre. Apesar disso, ele ressalta que alguns embarques ainda devem ocorrer.

"Contratos já firmados precisam ser cumpridos e alguns cortes de maior valor agregado podem continuar competitivos, mesmo com a tarifa adicional. Mas esses casos devem ser exceção", afirma.

Para Serigatti, a nova política também deve alterar o comportamento do mercado chinês ao longo do ano. A expectativa é de que as compras fiquem mais concentradas no primeiro semestre, quando ainda há espaço dentro da cota, enquanto os embarques percam ritmo após o limite ser atingido.

Apesar da criação de novas tarifas, especialistas avaliam que a China não deve reduzir de forma significativa as compras de carne bovina brasileira. O país asiático ainda depende das importações para atender à demanda interna, especialmente diante do crescimento do consumo.

Segundo Maurício de Palma Nogueira, a China conseguiu recuperar boa parte do rebanho suíno após os impactos da peste suína africana em 2020, mas o cenário é diferente no mercado de carne bovina. A produção doméstica continua insuficiente para atender ao consumo, que segue em expansão.

"Na carne bovina, eles precisam importar bastante. O consumo aumenta ano a ano e eles não conseguem produzir o suficiente", afirma.

Segundo ele, a estratégia chinesa faz parte de um plano mais amplo para reduzir a dependência externa em alimentos considerados estratégicos.

"A grande preocupação da China hoje é garantir segurança alimentar diante dos conflitos internacionais. Eles querem reduzir a vulnerabilidade do abastecimento."

Estratégias das Indústrias

O levantamento da StoneX aponta que, até o final de junho, aproximadamente 98,5% do volume autorizado já havia sido comprometido nos embarques. Como as cargas levam, em média, um mês para chegar à China, a projeção é que o limite seja atingido em agosto.

Na avaliação do mercado, isso já levou frigoríficos a reduzir o ritmo de compras de animais para abate e diminuir a produção destinada ao mercado chinês.

Segundo Felipe Fabbri, da Scot Consultoria, existe uma diferença importante entre os números oficiais divulgados pela China e a percepção do mercado.

"Os dados oficiais mostram cerca de 65% da ocupação da cota até maio. Mas essas informações consideram apenas a carne que já entrou na China. O mercado olha também para os embarques realizados até o final de junho e entende que a cota praticamente já foi preenchida."

Esse cenário explica por que diversas indústrias anunciaram férias coletivas, redução de turnos de produção e desaceleração das compras de boi gordo nas últimas semanas.

Para Maurício de Palma Nogueira, trata-se de um movimento preventivo.

"Os frigoríficos já vão reduzindo um pouco os abates para não produzir essa carne que será exportada para lá ou para produzir essa carne em um custo menor."

Nesse cenário, empresas com operações internacionais, como Minerva e MBRF, podem ampliar o uso de unidades localizadas em países vizinhos ao Brasil, como Argentina, Uruguai e Paraguai, para atender a demanda externa.

Fontes ligadas ao setor apontam que parte das plantas brasileiras deve manter o foco em outros destinos, como os Estados Unidos, enquanto unidades instaladas em países como Argentina, Uruguai e Colômbia podem seguir com maior participação no abastecimento do mercado chinês.

Segundo Luca Vello, analista da Genial Investimentos, esses países ainda possuem espaço dentro das cotas de exportação concedidas pela China, o que permite um eventual redirecionamento de volumes caso haja redução dos embarques a partir do Brasil.

Como fica o mercado?

No mercado brasileiro, o pesquisador acredita que os impactos serão mais graduais do que parte do setor espera. Embora possa haver pressão de curto prazo sobre os preços, ele considera improvável uma queda significativa no valor da carne ao consumidor.

"O Brasil pode redirecionar parte da produção para outros mercados, embora nenhum tenha capacidade de absorver os volumes comprados pela China. Além disso, o ciclo pecuário já mostra um movimento de retenção de fêmeas, o que reduz a oferta de animais para abate e ajuda a sustentar os preços", explica Serigatti.

Segundo levantamento da Safras & Mercado, a China pagou, em média, US$ 6.751,13 por tonelada da carne bovina brasileira em junho. Caso incidam 55% de tarifas adicionais, esse custo subiria para US$ 10.464,26 por tonelada, um acréscimo de US$ 3.713 por tonelada.

Outro fator citado por Serigatti é o comportamento do mercado futuro do boi gordo. Segundo ele, a curva de preços continua apontando valorização da arroba até o fim do ano.

"Se o frigorífico vai pagar mais caro pelo boi, é difícil imaginar que consiga vender a carne por um preço menor. Os sinais do mercado não sustentam a hipótese de uma queda expressiva dos preços da carne bovina nos próximos meses", conclui.

Já no mercado físico, a Scot Consultoria observa que a arroba do boi gordo perdeu força desde a segunda quinzena de junho. A expectativa é que os preços em São Paulo permaneçam entre R$ 320 e R$ 330 durante julho e agosto.

O consumidor vai pagar menos?

Apesar da possibilidade de uma parcela da carne que seria destinada ao mercado externo permanecer no Brasil, especialistas avaliam que a cota chinesa não deve provocar uma queda significativa nos preços da carne bovina ao consumidor.

O impacto tende a ser limitado, já que o consumo interno segue firme e a oferta disponível não representa um excesso capaz de pressionar fortemente os valores no varejo.

Segundo Felipe Fabbri, o cenário mais provável é de ajustes pontuais, como promoções específicas em alguns cortes, mas sem uma mudança estrutural nos preços.

"É pouco provável uma redução expressiva nos preços. O mais provável são promoções pontuais, sem mudança estrutural", afirma.

Para Maurício de Palma Nogueira, a ideia de que uma dificuldade nas exportações automaticamente beneficia o consumidor pode gerar uma distorção na análise do mercado.

Segundo ele, uma queda prolongada na remuneração do produtor poderia desestimular investimentos na pecuária e reduzir a oferta de animais no futuro.

"Pode até parecer bom num primeiro momento, mas depois ocorre o desestímulo da produção. Lá na frente falta carne e os preços voltam a subir", explica.

O analista destaca que o mercado de carne bovina funciona em ciclos. Uma redução nas vendas externas pode aliviar os preços no curto prazo, mas, se comprometer a rentabilidade da atividade, pode provocar uma menor oferta nos anos seguintes e pressionar novamente os valores ao consumidor.

































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